sábado, 20 de dezembro de 2008

domingo, 23 de novembro de 2008

Pelô

Pelourinho criança
Passando fome

Ah, Farol da Barra!

Tolos homens a fugir de tuas luzes
Em caminhos tortuosos

Apontas para o mar
Minha morada
Teu maior segredo

Em teu lampejo encarnado
Vejo uma trilha de dores, gritos, agonias

Em teu lampejo alvo
Vejo a esperança, um guia

Perdoai-lhes, grande torre!

Perdoai-nos!

Perdoai-nos...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Olhar

Havia ondulações sobre as nuvens; oceano revolto se estendendo no infinito do céu.

Havia também sujeira; muitas pessoas na areia.

Eram tantos os olhares e eu lembrava, vendo aquele casal, da tarde naquela outra praia, onde fomos erguer nossos castelos. Tu amavas o mar, como eu, e desejavas, do fundo mais profundo da alma, que tudo ficasse bem. Não queríamos a sorte das coisas materiais, mas apreciávamos o macio colchão, no qual passávamos o tempo a olhar um para o outro.

E foi tão longo o tempo dessa exposição, que lá permanecemos; para não esquecermos quem éramos.

Vamos em frente. Há muito o que fazer, conhecer e admirar. Há muito com que se indignar. Mas vamos juntos. Sempre juntos; cada um, assim, na retina do outro...

Olhemo-nos, querida, olhemo-nos...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Vento

Dorme o Rio, ruas vazias,
E tu caminhas à beira-mar
O vento, docemente, em teu cabelo
Vem te beijar

Fui eu, quem mandou o beijo...

Há tanta dor neste mundo, tantos tiranos, de tantos ismos...

Vem, te proponho, amar é isso
É ter fé; e sorriso
É caminhar sem saber o risco
É dar a mão

Ao passar dos anos, envelhecemos
Vão-se os tiranos, morrem sedentos

Só não passa o vento

Eterna criança a brincar na tua pele...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Sobre Amizade

A vida não é brincadeira, mas eu insisto em jogar dados, dar uma corrida, chutar a bola e rir de qualquer bobagem gostosa.
Às vezes as coisas ficam tensas, a gente tem que ser forte. Nestas horas enevoadas, os amigos são como faróis a nos iluminar o caminho.
Tenho tido ótimos amigos. Pra horas tristes e felizes. Sabem quando preciso de um abraço, de um sorriso e até mesmo quando preciso ficar sozinho por um tempo.
Antes que este texto fique muito piegas, eu dedico o poema abaixo a meus bons amigos e amigas. Vocês são poucos, raros, mas vão entender o que quero dizer; e saberão se reconhecer nas palavras.

Obrigado...

Acorda, amigo, acorda
É chegada a hora
Há quantas léguas andamos juntos?
Levas na mão uma rosa
Eu, levo o mundo

Levanta, amiga, levanta
O café está pronto
Abre a janela pro sol entrar
Dou-te um abraço longo
Beijas-me até chorar

Somos sementes que o vento leva
Passageiros na relva, gente

Ah, destino incerto
De todas as rotas
Só tenho em mente
Só amar importa
Como o mar
Que vai e volta
E permanece...

Assim é a gente...

domingo, 17 de agosto de 2008

Riqueza

Chorei tanto
Tão estranho sentir
Que um cego cantor de blues teve pena de mim

E fez seu sax dizer, assim, coisas tão belas

Choraram de New Orleans à azul Portela...

Então chegou o samba
No baticum da batucada
Que ecoa triste na madrugada

E renova na cidade a esperança

É como um choro de criança, que passa...

Ah, safado choro
Nas ladeiras do morro, de um barraco torto,
Estranho palacete em que te espero,

Rolam as notas de um sonho eterno...

Ah, esse canto a zombar da tristeza!
É tudo o que nos resta.
É nossa maior riqueza...

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cisma Sussurrante...


Cidade enovoada
Um sussurro de alerta
Na rua

Sombras se movem
Serpeiteiam pela nua
Lua

Me dizes: sou sua, sou sua...

E me despeço numa curva escura...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre mangangás e borboletas azuis

Cheguei uns 20 minutos antes. A sala não devia ter muitas pessoas; umas 20 talvez. Mas até a hora do evento ficou impossível encontrar um lugar vago.

De repente, ela entrou, usando um echarpe sobre o pescoço, com sua silhueta frágil, mas instigante.

Todos aplaudimos, ansiosos. Ela sorriu.

Logo, começou a falar sobre sua experiência no governo, as pressões de todos os lados, os avanços e diretrizes de suas ações, as parcerias. Todos ouviam atentos.

Assim, teve início a palestra da senadora Marina Silva, sobre a questão amazônica no período em que foi ministra do Meio Ambiente.

Eu já admirava a senadora antes, quando, ainda adolescente, conheci sua história aguerrida e cheia de esperança, dos seringais do Acre às avenidas de Brasília.

Chamou a atenção, em sua fala, a importância de se ter um olhar amplo e não sectarista quando se analisa uma questão tão complexa quanto a ambiental. Entretanto, pra quem acha que esse olhar amplo pode soar um tanto condescendente com práticas predatórias, a senadora fez questão de salientar a ética e a fé nos valores como diretrizes nas ações.

Num momento de singela beleza, ela lembrou de sua infância no Acre, em 1963 - ano de fundação da COPPE. Da sinfonia dos mangangás, espécie de abelhas polinizadoras, e de sua fé nas borboletas azuis, a quem seu tio atribuía a missão de guias caso ela se perdesse na floresta.

Imagino Marina, pequena, correndo pela floresta, rodeada de borboletas azuis...

Ela terminou contando uma história que alertava para a necessidade de respeitar-se os saberes locais, distantes da ciência ocidental branca, mas valorosos. Nesta linha, destaco a seguinte frase: "Não devemos governar para o Brasil, mas com o Brasil".

No final, todos aplaudiram, por muitos minutos. Palmas sinceras, calorosas, cheias de esperança. Como Marina, frágil à primeira vista, mas forte em suas convicções, espalhando fé, como uma borboleta azul.

Obrigado Marina...

domingo, 29 de junho de 2008

Caminhos

Caminhar é preciso. Sentir os odores, seguir os passos de alguém ou passo nenhum.
Pode-se ir daqui a algum lugar, pode-se deixar o vento rolar e ditar nossos caminhos, pode-se ficar e ainda assim viajar pelos labirintos que nos assombram; nossos caminhos íntimos...

As cidades tem lugares muito diversos, muitos, cheios de surpresa; boas ou más. O Rio não é diferente.

Como estou cheio das más surpresas, vou relatar aqui algumas boas, dessas que dá vontade da gente vivenciar de novo.

O Rio tem um pedacinho que pulsa história, saber, liberdade. Trata-se da região do entorno da Praça XV; ali perto do Paço Imperial, Rua da Assembléia, CCBB, Rua do Ouvidor. Estive lá num belo sábado, excepcionalmente ensolarado, com uma querida amiga. Pra começar, fomos ao CCBB, e vi pela décima vez a exposição sobre o Japão. Sob a cúpula estava acontecendo uma apresentação de Kendo, a arte japonesa do manejo com a espada.


Eis uma bela caminhada: encontrar um pedacinho do Japão aqui no Brasil.

Mas antes de entrar é preciso se libertar do que há de ruim.

E aprender que as mãos que fazem a guerra

Também promovem a paz, se assim o desejarem...

Mas, obviamente, as caminhadas não terminam assim. São feitas conexões, viradas, mudanças de plano. A gente pode se perder num velho sebo ou numa roda de samba em plena rua do Ouvidor, enquanto um grupo de fotógrafos vigia tudo em volta, captando a alma dos momentos.



Depois, no final de tudo, a gente pode dar a sorte de ver a tarde se despedir do dia, no Cais das Barcas, como nos contos de Machado de Assis.

Caminhar naquele sábado foi como encontrar um brinquedo perdido da infância, há muito esquecido, mas jamais ignorado.

E, antes que eu me esqueça, esta crônica é dedicada a minha grande amiga Aline de Jesus dos Anjos, autora das fotos - sim, podem falar, com uma amiga assim, quem precisa esperar o céu?.


Boas caminhadas...

sábado, 7 de junho de 2008

Nippon


Sempre estive em trânsito. Morei em muitos lugares diferentes durante esses 22 anos. A maioria no Rio, mas brinquei na Baixada Fluminense e também no Nordeste.

Pode parecer estranho um texto com título Nippon começar assim, mas vocês vão perceber a ligação quando eu chegar lá.

Para comemorar os 100 anos da imigração japonesa, dentre tantas outras iniciativas, o CCBB está com uma exposição de tirar o fôlego - e de fazer pensar sobre a natureza humana. Trata-se de Nippon.

São contemplados séculos de história do Japão, desde a antiguidade, passando pela era dos Samurais e chegando a era dos animes e robôs. Estão expostos gravuras, a arquitetura, armuduras e armas samurais, origamis, ikebanas (uma espécie de arranjo de flores), a cerimônia do chá, trajes, etc. Além disso, há oficinas diversas, assim como apresentações musicais e de teatro.

Neste passeio histórico, um capítulo em particular me emocionou muito: o da imigração para o Brasil. Há um vídeo com um filme feito a respeito da imigração, que mostra imagens dos primeiros representantes da Terra do Sol Nascente a desembarcar no Brasil, em Santos. São rostos com medo e esperança. Famílias inteiras rumo ao desconhecido.

Conheço pouco a respeito do Japão, à exceção do que me mostraram os seriados e animes. Entretanto, tive uma grande identificação com esse drama dos imigrantes. É estranho, mas como nunca fixei residência por muito tempo num só lugar, sempre me senti um imigrante também. Um imigrante em minha própria terra. Sempre em busca de uma pequena felicidade, dessas que não se pode comprar.

Os japoneses hoje se integraram a nossa cultura, e contribuíram muito para a "cultura brasileira". Conheci alguns, poucos, mas identifiquei em todos um gosto excepcional pelo trabalho. Talvez, esses brasileiros com olhos estreitos não sejam assim tão parecidos com seus ancestrais, mas isso não importa muito. Tem olhos estreitos, mas enxergam longe.

Por um segundo, meus olhos se estreitaram também. E enxergando além, vi que o ser humano não é tão diferente assim, por mais distante que um esteja do outro. Há sempre essa força estranha no íntimo de cada um. Essa pequena chama chamada esperança e que no respeito ao outro, na união, tem um poder que fogueira isolada alguma pode ter.


P.S.: A exposição vai até o dia 13 de julho, no CCBB do Rio. É permitido fotografar :)

http://www44.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr2/rj/DetalheEvento.jsp?Evento.codigo=32853&cod=3

sábado, 12 de abril de 2008

Solidão


Li, recentemente, um livro que tem me perseguido há muito tempo.

Devia ter mais ou menos 16 anos quando tentei lê-lo pela primeira vez. As coisas no início caminharam bem, mas por algum motivo inesperado comecei a me perder naquelas páginas e simplesmente interrompi a leitura; mas não pra sempre.

Agora, 6 anos depois, retornei a esta obra-prima. Refiro-me ao Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez.

O que é a aventura humana sobre a Terra? Qual o valor e o significado de nossos sonhos, nossas aspirações? Em outra palavras, quem somos, realmente, e o que nos move?
Essas questões não não necessariamente respondidas no livro, mas são abordadas de maneira tão comovente e tão lúdica que ao terminar o livro - sim, eu terminei - fiquei com a sensação de ter vivenciado na pele as experiências de cada personagem. Assim são as boas histórias; tocam na essência humana, são simples, mas não simplórias.

Já li resenhas do livro que o classificam como um retrato da América Latina - e não o deixa de ser -, mas a caminhada da família Buendia vai além; rompe as barreiras geográficas e linguísticas e se estabelece no imaginário de todos os seres humanos, num plano onde não há fronteiras.

Estão lá a tristeza, a loucura, a paixão, o sonho dos tiranos e dos heróis, e suas desilusões, a solidão que nos persegue.

Sim, a solidão que nos persegue, sejamos bons ou maus, ricos ou pobres, estejamos na cidade ou numa cápsula perdida no espaço.

Ela sempre estará presente; este fantasma que nos assombra, até o dia em que nos libertamos, e descansamos.


sábado, 5 de abril de 2008

Lúmini


Este post vai destoar um pouco dos outros. Não que eu não tenha poemas, mas eles ainda estão amadurecendo nas minhas gavetas...

Estava saindo da faculdade, distraído, no final da tarde da última sexta-feira. Foi quando percebi um cartaz muito bonito, anunciando uma peça de nome Matéria, de uma companhia de dança chamada Lúmini. Bem, fui conferir.

A peça aconteceu no auditório Roxinho, da UFRJ. Bonito auditório; tenho muitas histórias interessantes pra contar sobre esse lugar, mas isso fica pra outro post.

A questão é que me surpreendi, a começar pelo depoimento do diretor geral da companhia; um físico bailarino. É sempre bom ver pessoas que enxergam o mundo de uma maneira múltipla, não sectária, como o mundo realmente é.

O espetáculo é baseado na criação de efeitos sensitivos surpreendentes, através do uso de elementos como fumaça, luz , música, e, é claro, dança. Unindo conceitos de física, química e das artes, em geral.

Assim, formas incríveis são criadas na frente do público, como se tivessem vida própria; figuras geométricas bidimensionais e tridimensionais giram e se fundem no palco. É como uma animação fora da tela, feita ali, diante de todos. Como mágica.

E como toda mágica, é difícil expressar com palavras o seu verdadeiro significado. Por isso, indico a todos este espetáculo espetacular.

(Foto retirada do site: http://www.lumini.art.br/)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

domingo, 13 de janeiro de 2008

Visitantes

A Rubem Braga

Prefiro ficar aqui, nesta praia. Onde os meninos continuam a jogar bola e a construir seus castelos.

Gosto mesmo é de fixar os olhos no horizonte, esperando surgirem, de repente, imensas caravelas, trazendo consigo o sol e rumores de terras distantes.

Como os ciganos ao povo de Macondo, os marujos nos fariam grandes revelações; que em algum lugar faz frio e que há poucos casacos para todos, mas a proximidade da gente impede que haja mortes, e que havendo, faz-se silêncio; que os homens continuam a criar “ismos”, mas falta muito peito, inclusive respeito, exceto, é claro, em Ipanema, onde o primeiro abunda; que há canto na África em meio aos tambores da guerra, assim como na favela. Eles trariam objetos também; espelhos, máquinas de calcular, fotografias... e nós retribuiríamos com aquela velha e boa cachaça de Minas .

Conversaríamos, beberíamos e comeríamos durante todo o dia, e à noite faríamos uma grande fogueira, através da qual as histórias ganhariam um ar sinistro e tenso, como nossos rostos e olhos refletindo as chamas.


Por fim, guiados pelo farol sobre as areias, eles partiriam, em busca de outras crianças a construir castelos, como os meus...

Alberto de Lima, Rio, 13/01/2008.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Muros

Moro Lá no Alto, pertinho do sol
As crianças correndo pelos becos me enchem de esperança
Seus papagaios são um prenúncio de carnaval
Confetes na tristeza do dia

Lá embaixo há correria
Cada teco um sinal de hipocrisia

"A concordância é geral"
"Somos o povo da alegria"
"O povo cordial"

Mas a cidade está partida
E sangra por todos os lados
E o povo de baixo só olha pra cima
Quando a blindagem é ferida

Moro lá no alto

"Seria belo o pôr deste sol, não fossem os muros do nosso tempo...."


Rio, 01/01/2008