sexta-feira, 21 de maio de 2010

Sou vento, sou pedra, sou o que quero...

Texto por: Alberto de Lima

Quando escrevo, coloco o mundo sob a ponta do lápis;
Rabisco amores, apago dores
Sopro a fuligem dos desertos
Viro a página quando me encho de palavras

Não há nada mais profundo do que uma folha em branco;
Nada mais amplo, nada mais quieto
Ouça o vento curvando-se nas pedras
Às vezes sou esse vento
Às vezes eu sou a pedra.




Imagem por: Rudy Trindade, inspirada no texto.

Publicado originalmente no blog Caneta, Lente e Pincel, em 10 de setembro de 2009.

domingo, 16 de maio de 2010

História de Pescador

Imagem por: Marcelo Damm.


Eles Chegaram em uma tarde rubra; as nuvens pegavam fogo.

Aprendi a pescar com meu pai, que aprendeu como o pai dele, que aprendeu com o dele, e assim por diante, até a cabeça doer com tanta lembrança de pai.

Meus outros professores foram o mar e o vento.

O mar era aquela coisa de doido; ora manso e generoso - tanto peixe que a canoa chegava quase a virar -, ora bravio - de forma que a canoa virava de qualquer modo mesmo. Já o vento, conduzia nossos pequenos veleiros, quando a necessidade nos levava mais longe. Às vezes, mar e vento se juntavam e era cada onda que a gente só ficava na areia, as tarrafas guardadas, abestalhados.

Muita vez, nas ignorâncias da juventude, não dava atenção aos sinais. Partia sozinho, no enfrentamento de raios e tufão. Chegando em casa era aquela surra de mãe - pai ficava no balanço da cadeira, com um sorriso matreiro, de cachimbo na boca. Mãe ainda dizia: "Acuda, minha Nossa Senhora, que esse minino ainda me mata!". À noite, enquanto sonhava, me dava um beijo. E sorria.

Se foram em uma sexta-feira da Paixão. Por quarenta dias me retirei; remos em punhos. Alguns golfinhos e aves vinham me visitar, percebendo minha tristeza, pois tem muito bicho mais esperto e sensível que muito homem.

Superado o luto, voltei à vida de mar e peixe. Construí canoa e dei a ela o nome Gratidão, em homenagem aos velhos. Casei, tive filhas - duas sereiazinhas - e fui capitão de barco - o melhor que já existiu na vila.

O tempo foi assim passando. O sol deixando suas marcas na pele.

Até aquela tarde rubra, quando eles chegaram.

À bordo de Gratidão, vi o estranho barco surgir dentre as nuvens e pousar a meu lado. Olhei em volta, em busca de ajuda, mas ninguém me via.

Por um bom tempo ficamos ali; eu numa curiosidade só, o barco-balão a me encarar.

Foi quando uma visão na janela da embarcação me fez remar ao seu encontro. Os pescadores ao longe sorriam - vai ver, era uma boa história de pescador -, alheios ao que se sucedia em volta.

Na janela da nau, meus velhos também sorriam, a me esperar.


Texto por: Alberto de Lima, inspirado na imagem.

Publicado originalmente no blog Caneta, Lente e Pincel, em 5 de outubro de 2009.

Um sopro do passado

De vez em quando, é saudável revisitar o passado. Na verdade, penso que o passado está sempre presente, de forma que não há nem ele, nem o presente e, muito menos, o futuro.

As postagens que virão após esta compreendem parte do trabalho que publiquei no então nascente blog Caneta, Lente e Pincel, no ano de 2009.

São obras coletivas, onde o texto foi elaborado inspirado em uma imagem, ou vice e versa.

Espero que apreciem.

sábado, 8 de maio de 2010

Paradoxo

Tal qual sardinha, enlatados,
Vamos nós, nas veias da cidade

A cidade que é o Mundo
Estranho paradoxo!
Tem todas as dores,

Todas as felicidades...