sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Prata

Para a Serra dos Órgãos, como vista certa manhã de minha janela

Montanhas distantes
O sol, bem mais longe, as ilumina
Veios de prata na retina

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Revolução

bandeiras tremulam sob o céu azul
passos firmes pressionam o solo asfáltico
construção

saíram no jornal
os ossos quebrados em mil pedaços
o sangue derramado
os fatos...

não viram os sorrisos trocados
as mãos juntas a formar laços
a lágrima que se doa, indômita,
seguindo, sobre as faces nuas, as marcas do tempo

não viram tua fé
nossa loucura

construiremos um templo...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Segunda, 23, foi dia de Jorge...

...e resolvi aproveitar uma das atrações de meu bairro. Em Quintino há um ano, não pude conferir os tradicionais festejos do ano passado. Desta vez, entretanto, queria ver tudo de perto. Acordei cedo e me dirigi à Igreja de São Jorge. Santo e orixá - na bela tradição sincrética de nosso povo, São Jorge é o orixá Ogum -, se unem e inspiram seus devotos a encher de vermelho e branco as ruas do bairro.

Caminhei por volta de 15 min de minha casa até a igreja. No caminho, bandeirolas vermelhas tremulavam nas fachadas das casas, com a famosa imagem de um cavaleiro matando um dragão e com a enigmática inscrição "dia sem missa". Havia um churrasco em cada esquina, em casas e bares, com o feijão fervido em panelões de ferro sobre lenha em chamas.

Acho que nunca vi Quintino tão bonito de gente e alegria; gostaria que os demais dias fossem assim...



As fotos ilustram um pouco dessa experiência. Infelizmente, não consegui entrar na igreja, mas, de alguma forma, o espírito das pessoas transportava o clima de devoção para as ruas, misturando choro, velas, olhos fechados para a alma, flores e mãos estendidas para o alto ao clima de festa traduzido pela cerveja vendida a apenas R$ 1,50 e pelos diversos pagodes que ressoavam aqui e ali (Arlindo Cruz imperava na maior parte deles).






Na volta, um grupo de repórteres fazia um pequeno carnaval em torno de uma pessoa. Olhei bem e reparei que era o prefeito Eduardo Paes. Somente os repórteres pareciam dar atenção a ele. Ao me virar, no rumo de casa, um casal começou a desabafar sobre sua insatisfação com os reboques de carros particulares realizados naquele mesmo dia, argumentando que antes não havia esse tipo de "palhaçada" e que não havia muitas opções de transporte para lá, além de não existir estacionamento gratuito na região. Não sei bem o que dizer sobre isso, mas, tendo a concordar com o casal (palavra de quem sofre diariamente com o transporte público da região). De fato, vi muitos guardas municipais e carros da secretaria de (des)ordem pública no entorno da igreja.

Os tempos mudam, mas, pelo menos, é bom saber que a irreverência carioca permanece. Viva São Jorge! Via Ogum!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Poetas, jornais e tesouras

Hoje foi um dia chuvoso no Rio; talvez o primeiro dia frio do outono. Navegando na internet topei, de repente, com a morte do Millôr Fernandes. Fiquei sinceramente triste. Porque era outono, porque chovia e porque o Millôr havia partido...

Lá pelo início dos anos 2000, quando eu começava a me aventurar com maior gana no mundo das palavras, tinha algumas manias incomuns para um rapaz de 15, 16 anos. Costumava comprar o Jornal do Brasil - nos domingos somente, pois a grana era curtíssima - e quando topava com alguma matéria interessante, a recortava, colava em uma folha de papel e a guardava (era meu copy and paste literal). Tinha especial interesse pelas matérias literárias e, abrindo a esquecida e empoeirada pasta onde essas matérias estão, reparei a frequência com a qual a coluna do Millôr passou por minha tesoura.

Dentre as matérias que mais gostei, gostaria de citar a série que o jornalista publicou sobre o poeta Yehuda Amichai. Na época, fiquei muito impressionado pelo teor visceral dos poemas, traduzidos para o português pelo Millôr. São poemas que procuram transcender as identidades e fundamentalismos nacionais, na busca por uma humanidade que reconheça e supere as mazelas das guerras e conflitos de qualquer natureza.

Declamei um dos poemas do Amichai em um sarau, na época do ensino médio, ao som de Stairway to Heaven, do Led Zeppelin. O poema está no final desse post.

Escrevo esse texto em uma madrugada que se insiste chuvosa.

Vá em paz, Millôr.



Poema temporário em meu tempo

A escrita hebraica e a escrita arábica vão do leste para o oeste
A escrita latina do oeste para o leste.
Linguagens são como gatos:
Não se deve alisar o pêlo em direção contrária.
As nuvens vêm do mar, o vento quente do deserto,
As árvores dobram-se ao vento,
E pedras voam aos quatro ventos,
Em todos os quatro ventos. Eles jogam pedras,
Jogam esta terra, uns nos outros,
Mas a terra sempre cai de volta à terra.
Jogam a terra, querem se livrar dela,
Suas pedras, seu solo, mas não podem se livrar dela.
Jogam pedras, jogam pedras em mim
Em 1936, 1938, 1948, 1988,
Semitas jogam em semitas e anti-semitas em anti-semitas,
Homens maus jogam, justos jogam,
Pecadores jogam e tentadores jogam,
Geólogos jogam e teólogos jogam,
Arqueólogos jogam e arqui-hooligans jogam,
Rins jogam pedras e bexigas jogam,
Pedras cabeças e pedras frontispícios e o coração de uma pedra,
Pedras na forma de uma boca aos gritos
Pedras que se ajustam nos seus olhos
Como um par de óculos,
O passado joga pedras no futuro,
E todas elas caem no presente.
Pedras em pranto e risonhas pedras do cascalho
Até Deus na Bíblia jogou pedras,
Até o Urim e o Tumim foram jogados,
E ficaram presos na couraça da justiça
E Herodes jogou pedras e saiu daí um Templo.
Oh, o poema da tristeza da pedra
Oh, o poema jogado nas pedras
Oh, o poema de pedras jogadas.
Existe nesta terra
Uma pedra que nunca foi jogada
E nunca construída e nunca revirada
E nunca descoberta e nunca recoberta
E que nunca gritou de um muro
E nunca foi recusada pelos construtores
Nem colocada em cima de uma tumba
Nem embaixo de um casal de amantes
E nunca se tornou fundamental?
Por favor não atirem mais pedras,
Vocês estão rojando a terra
A terra sagrada, plena, aberta,
Vocês estão rojando a terra ao mar
E o mar não a aceita
O mar diz, em mim não.
Por favor, joguem pedras pequenas,
Fósseis de caramujos, joguem cascalho,
Justiça ou injustiça das pedreiras de Migdal Tsedek,
Joguem pedras macias, joguem doces torrões,
Joguem limo, joguem lama,
Joguem areia da praia, poeira do deserto,
Joguem crosta,
Joguem solo, joguem vento,
Joguem ar, joguem coisa nenhuma
Até que as mãos fiquem cansadas
A guerra fique cansada
E mesmo a paz fique cansada e fique


Yehuda Amichai (traduzido por Millôr Fernandes) 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Encontros

Para meu pai, o Nezo, com amor


Na última semana completou-se um ano que meu pai decidiu partir de nosso convívio. Embora escrever seja uma das atividades que mais me dão prazer, pouco escrevi sobre sua morte. Talvez, porque a morte seja algo difícil de se racionalizar, pelo menos para mim. Espero que ao ler esse texto você não me tome por cético. É que todas as diversas concepções de morte, ou destino da alma, exigem algum grau de organização cósmica, modelo, padrão, que nada me dizem, não me afetam, não me tocam; o que é muito diferente de nada sentir.

Sinto constantemente a presença de meu velho, nos pequenos detalhes, nas lembranças, naquilo que tínhamos em comum e também, porque não dizê-lo, nas diferenças.

Lembro, por exemplo, quando certa vez ele chegou do trabalho e me disse, estendendo uma fita k7 na minha direção: "filho, ouça isso!". Eu devia ter uns 13 anos.

Era uma fita do Milton, o Nascimento. Ouvi como um louco, me apaixonei. Era uma coletânea intitulada A Arte de Milton Nascimento.



Certa vez ele me disse que um amigo estava justificando a suposta falta de interesse dos jovens em artistas mais 'antigos', citando o próprio Milton: "esses caras não são interessantes; é tudo arcaico, por isso, os jovens não gostam deles". Ao que meu pai respondeu, orgulhoso: "Ah, mas meu filho gosta muito!"

Quatro meses após sua morte, me vi pela primeira vez na linda cidade de Ouro Preto. Fui até lá sozinho, mas encontrei pessoas maravilhosas com quem passei ótimos momentos. Fui ao Festival de Inverno que acontece anualmente na região. Em uma noite muito fria, fazia menos de 10 graus, fomos à cidade vizinha de Mariana. Na praça ao lado da estação ferroviária, uma pequena multidão se aglomerava, em frente a um palco.



Naquele noite, vi pela primeira vez um show do Milton. Chorando como nunca, naquela região cheia de histórias de nosso país, ouvindo uma voz quase divina, senti uma paz extraordinária. Senti meu pai. Senti, e aqui não me preocupo em ser coerente, que morte e vida são faces da mesma moeda; que somos um aglomerado desses encontros de sangue, ossos, carne, pessoas, fitas k7, cidades, vozes, música...

Entendi que o divino está no encontro e sou muito grato por isso; grato ao meu pai, grato ao Milton, aos meus amigos; à vida.


"Toda vida existe pra iluminar
o caminho de outras vidas que a gente encontrar
homem algum será deserto ou ilha
como não pode o rio negar o mar"
Filho, por Milton Nascimento e Fernando Brant.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Arte na parede 2: Maravilha de cenário

Continuando na mesma linha do último post, apresento a segunda capa de LP emoldurada. Ficou muito mais bonita que a primeira. E embora tenham demorado mais de um mês para terminá-la, pelo menos a apresento no carnaval, que tem tudo a ver com o álbum em questão.


Trata-se da parte interna da capa do LP Maravilha de Cenário, do grande Martinho da Vila, lançado no ano de 1975. A arte é de Elifas Andreato. Reparem bem na brasilidade das figuras retratadas, nas cores variadas e também na diferença estética entre elas (algumas são mais simbólicas, como a máscara africana no lado direito e o palhaço no centro, enquanto outras tendem ao realismo fotográfico, como o caboclo de chapéu no alto). Gosto especialmente do olhar enigmático da mulher com chapéu estilo cangaceira.

Abaixo, vocês podem conferir em detalhes :)








terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Arte na parede

Embora na década de 90 os CDs já fossem uma realidade, eu demorei muito a ter contato com eles. Além do rádio, meus primeiros passos na música devem muito ao LP (sim, a velha bolacha de vinil!) e à fita K7 (viva a pirataria!). A vitrola lá de casa tocava muita coisa, sobretudo os velhos discos de samba do meu pai.

Hoje, a vitrola já não existe mais e alguns (poucos) discos sobreviveram à ideia de minha mãe de jogá-los no lixo (não a culpo, mas perdi, por exemplo, um Abbey Road muito bem conservado e parte da coleção de história da MPB, lançada pela Abril Cultural em 1970).

Andei tirando alguns do armário e me deparei com belos encartes. Tive então a ideia de emoldurá-los e colocá-los na parede, um lugar muito mais nobre para esse tipo de arte que se perdeu.

O encarte abaixo, por exemplo, é do álbum duplo Retratos de Sinatra, lançada pela Reprise Records em 1980.

Embora não seja um fã de Sinatra, fiquei apaixonado pela ilustração do Vilmar. Vemos Sinatra em primeiro plano e ao fundo, nas arquibancadas do Maracanã, uma legião de brasileiros famosos e anônimos, reais e ficcionais (se é que é possível fazer essa diferenciação), um "carnaval" que expressa muito bem nossa brasilidade e o clima dos estádios de então.